MEU CABELO
A história do meu cabelo "duro"
Eu cresci
acreditando que meu cabelo não era bom. Que ele precisava ser “consertado” já
que a natureza não me concedeu o privilégio de ter um cabelo lisinho, que eu
pudesse balançar e usar do jeito que eu quisesse. Eu olhava os cabelos de
algumas primas e coleguinhas de escola, e invejava. Porque eu, logo eu, tinha
que nascer com aquele cabelo duro? Porque Deus me odeia tanto? A minha mãe é
branca, loira, tem cabelo cacheado, só que o dela é bom. Mas eu herdei esses
genes ruins do meu pai, e nasci com uma palha de aço na cabeça.
Meu
cabelo era volumoso, cheio de ondinhas e com vontade própria. Minha mãe não
sabia o que fazer. Penteava meu cabelo seco; e as lágrimas escorriam pelo meu
rosto enquanto eu pensava que não era justo eu ter aquela juba horrorosa.
Cheguei ao cúmulo de cortar minha franja, a parte mais ressecada do meu cabelo,
numa tentativa inútil de tirar aquela parte feia. Como eu queria ter uma franja
lisinha.
Meu
primeiro relaxamento veio quando eu tinha nove ou dez anos. Lembro-me da minha
prima me dizendo na época que “pra ficar bonita, tem que sofrer”. Aquele troço
queimava, coçava. Mas eu tinha realizado meu sonho de ter um cabelo bom. De
poder jogá-lo para o lado que eu quisesse. De poder passar a mão nele, e
senti-lo sedoso e maleável. Pela primeira vez, eu me senti bonita. Recebia
muitos elogios quando meu cabelo estava escovado. “Acalmou a juba, hein?”;
“Nossa, ficou bem melhor!”; “Ainda bem que alisou aquele bucho”. É, eu achava
que eram elogios.
Aos doze,
minha mãe e eu fomos atraídas pela ideia da escova definitiva e sua promessa de
que cabelos lisos eram mais bonitos e mais fáceis de cuidar. Acredito que esse
tenha sido o primeiro nome dado ao que hoje chamamos de progressiva. Eu estava
louca para alisar, para ter o cabelo perfeito sem precisar ficar escovando. Eu
nunca mais precisaria me preocupar com aquelas ondinhas irritantes que
insistiam em estragar a minha escova. Se hoje eu não sei nadar, é por que eu
ficava com medo de molhar o cabelo, e ter que escovar pelo menos três vezes na
semana. Minha mãe ia gastar mais no salão e não tínhamos dinheiro para isso.
Fora que suas tentativas de escovar meu cabelo em casa eram dolorosas e só
aconteciam quando não podíamos ir ao salão. E eu queria evitar aquelas sessões
de tortura a todo custo. Não entendam mal, eu amo minha mãe e valorizei muito
seus esforços na época, mas só faria uma escova caseira se fosse estritamente
necessário.
Depois
que fiz a tal da escova definitiva, foi só alegria! E achava que aquilo iria
durar para sempre. Mas eu era uma menina ingênua. Tão perdida em minha baixa
autoestima, que não considerei o fato de que o cabelo cresce, que uma química
de alteração do formato dos fios não poderia nunca alterar minha genética. Por
isso não entendia quando surgiam aqueles fiapos enrolados, secos e duros que
inchavam minha raíz depois de três meses. Ora, não era uma escova definitiva?
Não deveria ficar com aquele balanço bonito para sempre?
A
cabeleireira não havia me explicado que era necessário retoques a cada três
meses para manter a eficácia da química. Então acabei me tornando mais uma
escrava de salão. E assim foi por toda a minha adolescência. Teve uma época em
que eu queria testar ele com cachos, então minha mãe colocava aqueles bigudins
que me deixavam igualzinha à Dona Florinda. Mas ao ver minha colega cacheada
com um cabelo escovado de dar inveja, e o quanto ela estava sendo elogiada, não
pensei duas vezes em voltar a usá-lo liso. Porque os meninos amavam aqueles cabelões
e nem olhavam para mim e meus cachos (mesmo que não fossem naturais). As
meninas que usavam cabelos cacheados, os entupiam de creme para ficarem
grudadinhos como miojo, e ficava legal, pelo menos eu achava. Mas meu cabelo
era duro demais para ficar daquele jeito. Escovar e alisar se tornou um hábito.
Fiz de
tudo no cabelo: pintei de preto, de loiro, fiz californianas, fiz franja
marcada, repiquei, usei chanel. Eu, na verdade, amava meu cabelo curto, então
usei ele assim por muito tempo. Aproveitei todas as fases do meu “versátil”
cabelo alisado e gastei rios de dinheiro que, pensando agora, poderiam ter sido
usados para financiar um intercâmbio (que sempre foi, e ainda é, um dos meus
maiores sonhos).
Então
havia chegado o dia. O dia em que fui para a faculdade. Eu estava prestes a
completar 18 anos e saí de casa para me aventurar sozinha em um mundo que ou eu
abraçaria ou me engoliria. Nos primeiros três semestres, ainda continuei usando
escova e alisando. Mas no quarto período, eu finalmente vi beleza no meu cabelo
natural e resolvi deixá-lo ser ele mesmo. Ele estava crescendo e eu havia
desistido de ficar cortando sempre que ele atingia um tamanho bom. Queria me
ver de cabelo grande de novo. Felizmente a química era fraca (guanidina e
sódio), então não tive problemas para “me libertar”.
Foi uma época que eu nem
sabia o que era big chop, transição, texturização. Eu nem sonhava em entrar no
Youtube ou pesquisar sobre cuidados com cabelos cacheados. Só achava produtos para
eles nas farmácias e ia fazendo do meu jeito. E gostei. Muita gente gostou. Mas
ainda havia um problema: o volume e a raiz crespa que eu ainda renegava. Alisei
muito a raiz pra que ela não ficasse tão ruim. Usei assim por quase dois anos,
até que ouvi falar da progressiva. Meu cabelo cacheado dava trabalho e estava
difícil de manter. Com a proximidade da formatura e das fotos para os convites,
tomei a decisão de alisar de novo. Porque, por mais que o cacheado fosse lindo,
eu queria um cabelo fácil, que me desse menos trabalho.
Mal sabia
eu que estava prestes a fazer a maior burrada de todos os tempos até hoje.
Em
janeiro de 2014 fiz tal progressiva. Mais moderna, mais atualizada e com uma
tonelada de formol que quase me sufocou. Tomei a decisão sozinha, sem consultar
ninguém, sem pedir orientação, pois me sentia adulta o suficiente para isso, e
tomei na cara tão forte que demorei muito para me recuperar. A química não
destruiu apenas meus cachos, mas também meu cabelo. Cortar as pontas não
adiantou. Hidratação não adiantou. Minha raíz ficou mais oleosa que o normal:
lavava em um dia e no outro já estava puro sebo. Percebi que gastei uma porrada
de grana para me destruir. Eu estava feliz, mas preferi ir na onda de que o
cabelo cacheado deve sempre ser alisado, seja por estética ou por praticidade.
Eu ainda pensei em fazer só uma escova para as fotos, mas queria uma mudança
radical. E consegui.
Parabéns, garota!
Em
dezembro de 2013, meu cabelo cacheado (apesar de alisado na raíz), estava na
altura dos seios. Em janeiro de 2014, eu fiz uma progressiva pesada com uma
quantidade ilegal de formol, que quase me sufocou no processo, e destruiu
aquelas madeixas saudáveis para sempre. Em fevereiro do mesmo ano, tive que
cortá-lo até um pouco abaixo da nuca. Quase quinze centímetros de cabelo
quebradiço e ressecado no lixo.
Aproveitei
meu cabelo curto e alisado. Sempre gostei de mudar o visual. Mas teve um
determinado momento em que ele já não me fazia mais feliz. Quando eu tinha que
lavá-lo quase que diariamente. Quando as pontas ficavam nitidamente ressecadas.
A ficha caiu. A progressiva não faz você ter menos trabalho coisíssima nenhuma.
Quem te diz isso, é um tremendo mentiroso. Cabelo liso é uma coisa, cabelo
alisado é outra. Os cuidados que você tem com um não serão os mesmo que se tem
com o outro, simplesmente por que o primeiro é naturalmente liso, e o outro
passou uma química de transformação para ficar liso; portanto, ele será mais
frágil e, por conseguinte, precisará de mais cuidados.
Em um dia de
abril de 2014, vi uma foto antiga minha, com meu cabelão cacheado, cheio,
bonito. Bateu a saudade. E o arrependimento. Ah, o arrependimento! Meu Deus,
como eu queria ter uma máquina do tempo para voltar atrás e me impedir de fazer
o que fiz com meu cabelo. Como eu queria ter escutado aquela voz dentro de mim
que me dizia para fazer uma escova simples, já que era só para as fotos. É
incrível como o ser humano pode fazer coisas tão estúpidas em um piscar de
olhos. Somos mestres nessa arte.
Eu ainda
cheguei a retocar a raíz e iria retocar de novo quando uma cabeleireira se
negou a fazê-lo e me incentivou a fazer um tratamento para voltar aos cachos.
Mas era caro. Caro demais. Então eu só resolvi continuar a deixar meu cabelo
crescer e ir cortando. Fui usando coque mesmo e fazendo escovas para festas e
outros eventos. Eu nem sabia ainda que estava passando por uma transição. Só
tomei consciência disso quando, em outubro de 2014, fiz o primeiro corte para
tirar a parte lisa. E também não sabia que aquilo se chamava big chop.
Eu tinha
medo de cortar muito curto, porque já ouvi de pessoas próximas que minha cara
era grande demais e ficaria péssimo. Mas uma menina maravilhosa da minha
faculdade me disse que, se tivesse a minha boca, não pensaria duas vezes em
cortar. Então ela me apresentou à sua amiga, a Carol, que corta cabelo
cacheado. Serei eternamente grata a ela pelo que fez por mim. Com uma tesoura
de cortar pano, ela cortou o meu cabelo e não deveu em nada para nenhuma
cabeleireira profissional.
Comecei a
ver beleza em mim, no meu cabelo, na minha origem. Ele não é duro, meu gene não
é ruim. A beleza estava na minha aceitação e eu sequer havia me dado conta
disto. Eu andava até mais feliz. E recebendo muitos elogios. Elogios de
verdade.
Fui
cortando aos poucos até chegar ao ponto que, em dezembro de 2014, com sete
meses de transição, cortei toda a parte alisada, só deixando a franja maior.
Ficou joãozinho mesmo, mas todo mundo adorou. Nessa época, eu já estava craque
em tudo que se referia a cabelo cacheado e comecei a dar dicas também para
pessoas próximas, até para amigas de cabelo liso ou ondulado. Consegui até
convencer minha mãe a assumir seu cabelo natural. Sim, ela também usou
progressiva, para dar uma “melhorada” nos fios, mas já estabelecemos que eles
são lindos como são. Ela está em transição e vem cortando as partes lisas aos
poucos.
Hoje,
estou completamente livre da progressiva. Meu cabelo é lindo. Eu o amor porque
ele faz parte de mim, de quem eu sou. Ele é minha identidade, ele me situa na
história e no mundo. Logo, ele sou eu. E eu me amo. Com todas as minhas forças.
Tenho meus momentos de insegurança como todo mundo. Mas eu me amo muito e é
isso que importa.
Graças a
Deus, não passei por nenhum tipo de preconceito com meu cabelo. Alguns
familiares chiaram por eu ter cortado, mas cabelo cresce. Além disso, conforme
meus cachinhos foram crescendo e aparecendo, eles não pararam de me elogiar e a
birra com o cabelo curto sumiu. Tem gente que simplesmente me para na rua, no
shopping ou qualquer outro lugar público, só para dizer que achou meu black lindo,
ou fica olhando e sorrindo. Quando faço coisas diferentes então (turbantes,
tranças de raíz, afro-puff, etc.), aí que a galera ama mesmo.
Mas, nada
disso seria possível, se eu não me amasse em primeiro lugar. Quando você se
ama, tudo no seu mundo entra em ordem. Você fica sossegada porque é confiante o
suficiente para saber seu valor. Você é feliz do jeito que é e ponto final.
Você fica linda por fora? Fica. Mas por dentro, é pura magia.
Tem
coisa mais bela do que se amar?
É o amor
próprio que te dá forças para aguentar as críticas, mesmo das pessoas mais
próximas, cujas opiniões significam muito para você. Veja bem, nem todo mundo
tem o mesmo ponto de vista. O mundo é grande demais e as pessoas são diferentes
demais para pensar do mesmo jeito, por N motivos. Mas é exatamente por isso que
você não deve se deixar abater: porque não é todo mundo que pensa assim. E, com
a internet estreitando as fronteiras entre as pessoas, fica muito mais fácil
encontrar pessoas na mesma situação que você. Pessoas que vão te entender e te
apoiar. E esse número só tende a crescer. Entre em comunidades de transição
capilar no Facebook, em grupos do WhatsApp. Procure blogs, vídeos no Youtube,
se informe, se empodere, se fortaleça. E mantenha a cabeça erguida.
Seja
feliz!
“A felicidade move, renova,
embeleza e transforma. Mas é ainda melhor quando transborda”. — Tammy Kesher









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